Preto profundo

No final dos anos 60 a fotografia colorida começava a se popularizar, mas nem tanto. As capas das grandes revistas eram com cores, mas, os jornais ainda eram inteiramente em PB.

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Isso tudo foi se transformando rapidamente e os fotógrafos passaram a usar duas câmaras, uma com cor e outra com PB. Quando julgavam ser interessante, ou se “dava capa”, ou ainda se o editor pedia, fazia-se um cromo.

Meu envolvimento com a fotografia coincidiu com esse momento. As impressões coloridas eram raras, as cópias em geral não eram de boa qualidade ou eram caríssimas. Eu passei então a imitar os fotógrafos de imprensa, chegando a montar um equipamento parecido com o do Marc Riboud, com três câmaras de telêmetro (uma de reserva), normal e grande angular para elas, e uma tele média para uma reflex. Aí começou uma “esquizofrenia” que só recentemente deixou de me perseguir, provavelmente porque hoje não são mais necessárias duas câmaras para fazer PB e cor, já que vários programas permitem que você converta um arquivo digital para um PB indicando até um resultado parecido com o filme que mais aprecie.

Realizei meus principais ensaios com duas câmaras, fotografando tudo que conseguia em PB e cor – muito mais em PB – já que o filme era mais barato. Algumas vezes, intencionalmente ou não, deixava de fazer alguma fotografia em um dos dois materiais, depois me arrependia e lamentava pensando que a fotografada em cor ficaria melhor em PB ou a que fizera em PB ficaria melhor em cor. Quando em cor era possível converter para PB, em geral ficava horrível… de PB para cor, obviamente impossível…

 

Muito antes disso, montei um pequeno laboratório apertado no sótão da casa de meus pais, com um ampliador emprestado de um amigo, e lavava as cópias no banheiro da casa. Cópias péssimas, ou “lavadas” ou contrastadas demais, eu olhava com inveja e admiração as cópias dos concursos do foto-clube exibidas na vitrine da Ótica Boa-Vista. Logo o laboratório virou um depósito. Passei a fazer cópias no laboratório do Jesus Santoro, generoso mestre da fotografia curitibana, que me ensinou os primeiros passos para cópias de boa qualidade; aprendi a revelar os filmes examinando a densidade na lanterna de luz verde, enquanto revelava em uma pequena bandeja de inox, enrolando cuidadosamente para um lado e para outro. Passei a usar um revelador para cópias que Santoro chamava de “preto-profundo”, não lembro da fórmula, mas que levava a mesma quantidade de carbonato e de hidroquinona. Era bem contrastado, exageradamente contrastado. Quase todos os fotógrafos gostavam de cópias contrastadas naquela época anterior ao fotolito, talvez porque cópias suaves não produzissem clichês de boa qualidade para a impressão em jornais.

Depois a cor começou a ganhar as páginas do miolo das revistas, tanto nas matérias como na publicidade e tenho a impressão de que, nesse período, o pessoal de fotolito passou a se dedicar mais a reprodução gráfica das cores e houve um abandono do aprimoramento da reprodução do PB. Eu admirava as impressões suaves em PB das revistas estrangeiras, mas continuava a fazer cópias contrastadas com o “preto-profundo”. Nesse momento, Luiz Carlos Felizardo ficou um ano nos EUA (com uma bolsa Fulbright) acompanhando o trabalho do Fredrik Sommer, grande mestre da fotografia americana, voltando com sua fotografia aprimorada, além de se tornar um excelente “printer”. Felizardo, e depois o Zé De Bonni, me abriram os olhos e ajudaram a recuperar a gama tonal e melhorar o acabamento dos meus PBs; orientaram ainda sobre a parafernália de laboratório necessária para produzir as tais cópias chamadas de Fine Art.

O antigo e rude laboratório passou a ter então lentes de primeira qualidade nos ampliadores, cuidados especiais para fixar, lavar e secar as fotografias, viragens para aumentar a sua duração (existiam lavadoras sofisticadas criadas para, ao mesmo tempo, melhorar a lavagem e economizar a água tratada). Cheguei até a comprar um marginador francês caríssimo. As semanas de fotografia organizadas pela Funarte ofereciam oficinas de cópias, retoque, montagem de passe-partout, portfólios, enfim, tudo para melhorar o acabamento, além de divulgar uma série de normas para apresentação e armazenamento.

Antes disso, entre 1973 e 75, eu já me sentia “fotógrafo”. Minhas fotografias dos Bóias Frias integraram um projeto que acabou sendo premiado na bienal de São Paulo para onde enviei um outro projeto que também foi aceito; uma série de luvas de couro esmagadas no entorno de uma metalúrgica de Curitiba e que fotografei em formato médio em menos de meia hora, enquanto esperava para ser atendido. Fiz 10 cópias de 1,0 X 1,5 m e 50 portfólios com cópias de 18 X 24 cm, acomodadas em um envelope com uma serigrafia intitulando a coleção: Luvas, Mãos, Ferramentas. Nesses envelopes estavam as 10 fotografias das luvas de operários mais um texto explicando o projeto. O envelope era de papel craft, completamente inadequado para proteger fotografias e as cópias não tinham margens, tudo feito de maneira inapropriada.

Recebi a notícia da aprovação do projeto na última hora. Fiz as cópias grandes e comecei a fazer as quinhentas fotografias dos portfólios, na última hora. Lavei com todo cuidado, mas vi que não daria tempo de entregar se fosse secar na secadora do estúdio onde eu trabalhava, de quatro em quatro cópias. Levei tudo para secar rapidamente na secadora rotativa de um Jornal e consegui entregar o projeto.  Então vendi um portfólio, maravilha, só um! Os outros a Bienal me devolveu.

O que acabou sendo positivo, já que, em um ano estavam todos acabados, o pano da secadora estava impregnado de hipossulfito, pois o Jornal não tinha essa preocupação, a cópia era apenas um meio de chegar ao clichê, ao fotolito, jornalismo, tudo tinha que ser muito rápido, e tive de jogar tudo fora. Conto essa história para ilustrar fatos daquela época. Hoje enviamos nossos arquivos em PB ou cor para um atelier e eles são impressos em papéis especiais, com tintas minerais, e são entregues dentro de um envelope de plástico inerte, com a promessa dos fabricantes de que, se forem guardados em condições normais, durarão seguramente 200 anos.

Quando nós, “antigos”, falávamos de cópias de longa permanência em prata gelatina, considerávamos 150 anos o máximo, isso com selo de selênio ou ouro. Para cor tínhamos as belas, mas caríssimas, cópias em Cibachrome, que segundo afirmavam os fabricantes, se bem processadas em 100 anos apenas “esquentariam” um pouco a cor. As coisas mudaram.

Meu primeiro livro, em 1983, foi todo em preto e branco, embora eu houvesse feito o ensaio sobre os Bóias-Frias também em cor. O livro foi editado por uma pequena editora alternativa na Alemanha e não havia verba para impressão em cores. Eu fiquei admirado com a qualidade dos fotolitos feitos na Suíça, que, mesmo com uma só passada na máquina, traziam uma gama tonal surpreendente. Isso veio a reforçar a minha hipótese de que no Brasil, com a introdução das cores na impressão gráfica, as impressões em preto e branco passaram a ser descuidadas, uma espécie coisa de segunda classe.

Os antigos “fotoliteiros” e impressores, muitas vezes não deixaram bons herdeiros, que já na formação destes, foram apanhados pela avalanche das imagens coloridas e a pressa da publicidade. Portanto, para conseguir uma boa imagem em preto e branco, preferiam fazer uma policromia em CMYK a um duotone ou tritone. Pouco tempo atrás, o fotógrafo Valdir Cruz trouxe um técnico dos Estados Unidos para acompanhar a impressão de um de seus livros em São Paulo. Privilégio o de poder contar com esse apoio, mas a exigência dos fotógrafos tem levado as gráficas a aperfeiçoarem seus serviços de impressão em preto e branco, e apesar disso, ainda é importante uma boa supervisão. Acredito que hoje seja bem mais difícil imprimir cópias ou mesmo um livro em preto e branco do que em cor.

A minha experiência com o ensaio Aparecidas, sobre a festa de São Benedito, na cidade de Aparecida (SP), foi mais ou menos definitiva para minhas dificuldades nas decisões com relação à cor e ao PB e mesmo em relação aos formatos. Fiz um projeto que envolvia cor, PB e formatos 35 mm, médio e grande.

Fotografei os objetos de devoção em formato grande e em cor, como eu costumava fazer com produtos de publicidade, e os retratos em formato médio, em PB, como eu costumava fazer no estúdio. As cenas dos desfiles das congadas pediam a agilidade do 35 mm, o colorido dos estandartes, dos instrumentos e dos trajes dos congueiros, pediam cor. Nessa época eu já havia concluído praticamente o ensaio sobre os polacos e fotografado quase tudo em cor e PB, também em função da riqueza cromática – agora principalmente dos interiores – aí decidi usar cor no livro.

Comecei a fotografar as colônias de imigrantes poloneses nos anos 80 e só consegui patrocínio para o livro em 2003. Decidi então fazer retratos de pessoas que eu havia fotografado 10 ou 20 anos antes em preto e branco e usei esses retratos na abertura do livro. Tanto os retratos em PB do livro Aparecidas, como os do livro Tu i Tam, foram impressos em duotone com a ajuda de bons técnicos para produzir os arquivos e para acompanhar a impressão, com resultados bastante razoáveis. Apesar disso eram ainda distantes dos resultados obtidos em muitos livros produzidos hoje em dia, e, mais distante ainda, das cópias em prata-gelatina a partir das quais foram gerados os fotolitos e mesmo da gama tonal das cópias, feitas nas modernas impressoras à jato de tinta, com vários cartuchos de tons de cinza.

Talvez a facilidade de produzir cópias que imitam com grande perfeição a cópia fotográfica tradicional prata-gelatina – sem necessitar todo o aparato exigido para obtê-la e mesmo a exigência de um tempo de aprendizado muito menor para o “printer” – tenha facilitado o surgimento de um crescente mercado para a fotografia dita “de arte”. Esse mercado já existia há muito tempo nos centros internacionais, ainda na época da prata-gelatina (em 1995, só na Ilha de Manhattan existiam mais de 90 galerias de fotografia), mas, agora já temos inúmeras galerias espalhadas pelo Brasil, principalmente em São Paulo, onde acontecem também grandes feiras, que se dedicam a comercializar os trabalhos produzidos por fotógrafos e artistas/fotógrafos. Cada vez mais aumenta o número de jovens que procuram entrar nesse mercado, produzindo todos os tipos de fotografia e se adequando às exigências de curadores e galeristas.

O colecionismo de fotografias ampliou seus adeptos e a fotografia se tornou mais frequente na decoração de residências e outros ambientes, além de que os preços praticados por aqueles que conseguem se inserir nos bons patamares do mercado são tentadores, vamos ver o que nos aguarda…


DSC_8721Quem é João Urban?

Fotografo Independente e Professor do curso de pós graduação Fotografia e Imagem e Movimento, desde 2009, na Universidade Positivo, em Curitiba. Livros publicados: Bóias Frias, Tageluhner in Suden Brasilien (St.Galen/Wupertal)/ Tropeiros (São Paulo, 1992)/Aparecidas(com Suzana Barretto, Rio de Janeiro 2002)/Tu i Tam- Memória da Imigração Polonesa no Paraná (Curitiba-2004)/João Urban, Coleção Senac de Fotografia (S.Paulo 2005)/Mar e Mata – A serra, a floresta e a baía. Seus homens e suas mulheres (Curitiba 2009).

Fontes: http://photos.com.br/preto-profundo/

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