“Poipoidrome” abre no dia 4 de março

Poipoidrome

Poipoidrome é a terceira exposição imbricada nesta edição de Frestas. Seu nome é uma referência à obra homônima do artista francês Robert Filliou, realizada em colaboração com o arquiteto Joachim Pfeufer, a partir de 1963, que propunha uma reflexão sobre o que é a arte e quem são os artistas. O núcleo expositivo apresentará, assim, entre outros trabalhos, um conjunto de obras realizadas pelos artistas participantes do Ateliê de Pesquisa em Poéticas Visuais, que serão, ao mesmo tempo, confrontados com as questões levantadas por Filliou e Pfeufer.
De 4 de março a 3 de maio de 2015

Entre os Dogons, povoado da África Ocidental situado na República do Mali, é comum a saudação “Poipoi” para expressar certo contentamento em relação a tópicos do cotidiano, embora também sirva simplesmente para dar início à prosa em grupo. Quando o etnólogo Hermann Haan apresentou ao arquiteto Joachim Pfeufer e ao artista Robert Filliou esse modo sintético de comunicação dos dogons, este último resolveu realizar, com a colaboração de seu colega arquiteto, uma de suas mais irônicas e contundentes obras. Contudo, em Frestas – Trienal de Artes, “Poipoidrome” não é obra. Poderia ser uma homenagem, expondo as múltiplas versões dessa obra, concebidas pela dupla ao longo de alguns anos de parceria e mantidas pelo arquiteto após a morte do artista, em 1987. Em compensação, é mais provável que esse projeto adote a icônica fórmula de René Magritte, ao negar ser aquilo a que se assemelha. Isso porque, em sua origem, esse nome estranho na Trienal não é uma exposição e muito menos uma obra, embora conte com a participação de artistas de diferentes horizontes. A semelhança é uma espécie de eco que produz vibrações distorcidas do som original. Eis onde o “Poipoidrome” que realizamos na ocasião de Frestas – Trienal de Artes quer operar: ao retomar o postulado da obra do binômio Pfeufer-Filliou tenta encontrar na história recente das exposições uma maneira de pensar sobre a figura do artista e sobre o lugar que ele, o público, a obra e a exposição de arte ocupam no mundo e de que modo há interesse por parte deles em inventar ou insistir no inexistente.

O projeto foi pensado como uma saudação entre artistas e público, retomando o movimento inicial de Robert Filliou para pensar o estatuto desta figura que convive com as coisas que não existem, percebendo-as como insistência e não como o oposto de existência. Em Frestas – Trienal de Artes, “Poipoidrome” é a tentativa de retomar as ideias que Filliou concebeu em torno de sua noção de “Criação Permanente”. De fato, para ele, a permanência era a única tentativa de identificar a figura do artista, o que surgiu de uma anedota quando ouviu que as pessoas que se dizem artistas o são quando estão criando. Quando interrompessem o fluxo da criação, deixariam de ser. Pensando na permanência como um elemento que constitui a identidade do artista, Filliou também assumiu uma leitura crítica sobre esta figura, com a sua fórmula “bien fait, mal fait, pas fait” (bem feito, mal feito, não feito). O que conduz a pensar sobre o fato de que as polaridades e o senso comum sobre o bem e o mal feitos levaria o artista a não mais produzir arte; daí o “não feito”. Ou seja, a despeito de toda a tentativa de distanciar o artista desses paradigmas normativos, qualificando o que fazem como sendo boa ou má arte, é fato que ainda perduram leituras desnecessárias nos dias de hoje, que persistem em identificá-la dessa maneira, problema que se coloca quando essa identificação tendenciosa está relacionada exclusivamente a processos de legitimação de instituições consagradas ou do mercado hegemônico.

“Poipoidrome” propõe uma verdade circular, calcada pela desconfiança e pelo desafio de ser artista hoje, ontem e amanhã. Por isso, o projeto deve horizontalizar as paredes de Frestas – Trienal de Artes. Literalmente derrubadas, grande parte delas se transformarão em tablados para propor uma transição do objeto para a ação: falar, ouvir, argumentar, propor, problematizar, jogar, alimentar-se, correr risco e silenciar, algumas coisas que a mesa, como lugar de ação, leva em conta. O projeto se estrutura com base na experiência da cidade, de seus fluxos e refluxos, e conta com artistas que insistem em redesenhar o cenário local e regional, tanto quanto com outras que participam ativamente do diálogo com o mundo. Os artistas serão convidados a se colocarem diante da noção de “criação permanente”, que poderá ser vista como uma ideia contraditória — posto que, neste mundo qualificado por tanta impermanência nas relações, na politização e nos valores da vida, faz-se necessário uma dose de resistência e de insistência descomunais para tornar possível o convívio com o permanente, seja na comunidade, na arte ou na política. Por isso é de interesse do projeto cruzar a ideia deste artista franco-americano, segundo a qual “arte é o que fazem os artistas”, com o princípio de permanência da criação. Por outro lado, o que se propõe é o encontro entre o postulado de Filliou e o do artista Antoni Muntadas: “Atenção, percepção requer envolvimento”. Identificamos neles uma pausa prolongada e é por meio dela que se intende conhecer as diferentes articulações que asseguram a pluralidade da arte e do artista. Ao carregar o espaço de diálogo e de proposições artísticas com ideias que mobilizaram artistas de diferentes gerações a pensar sobre o fato de que “tudo é arte”, inevitavelmente, a ideia segundo a qual “arte é o que fazem os artistas” levanta uma afirmação interrogativa, mantida no campo da arte desde a segunda metade do século XX. Pois, se tudo é arte, todos somos artistas?

Nesse sentido, este projeto propõe investigar o lugar do artista no mundo pela via da insistência, da prática permanente e do envolvimento, todos vistos como mote para o convívio com o inexistente. Em vista de uma reorganização sem soluções claras ou consequências tangíveis, “Poipoidrome” não é, portanto, uma exposição. Não se encerra a partir de um determinado número de obras, conceito, artistas ou espaço/tempo, tampouco se pretende afirmativa. E caso sejamos todos artistas, há um dado que parece problematizar essa afirmação tautológica, uma vez que “percepção requer envolvimento”. Por isso, cabe interrogar de que modo os artistas são, nas palavras da crítica de arte Isabelle Graw, “especialistas em injetar vida nas coisas”. Pois, segundo ela, “já que se considera que a ‘vida’ é um objeto privilegiado da atividade humana, então a arte, para a qual a vida sempre representou uma força produtiva, se volta por sua vez a uma atividade proeminente”. Ela conclui: “é por isso que vejo os artistas como provedores de vida […]” Sentimentalismo, verdades obsoletas, adulações sem sentido ou reconhecimento da importância de uma figura que insiste em tornar possível  o convívio com o inexistente, com o político e com o intangível? Qual é o valor do envolvimento em uma modalidade de vida que se pauta na fugacidade e na instantaneidade? Como traduzir o desejo de se envolver com arte em uma sociedade que vê, quase sempre, no êxito propagandista o único motor para a propulsão do desejo e da ação? Todos ainda somos artistas?

Fonte : http://frestas.sescsp.org.br/calend%C3%A1rio/poipoidrome.aspx

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