O Ensaio Fotográfico e sua importância

Para ir além de uma boa foto ou de um apanhado de fotos sem unidade entre si, é preciso pensar no conjunto. Assim se constrói um ensaio fotográfico

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A rede social para compartilhamento de fotos Instagram comemorou recentemente a chegada à marca de 100 milhões de usuários. Diariamente, milhares de novas fotografias são postadas em redes sociais, muitas delas com qualidade surpreendente. Hoje em dia, fazer uma boa foto está ao alcance de todos, o que traz certa angústia para os fotógrafos e quem deseja seguir na profissão.

Uma das principais formas para se conseguir ir além de uma boa foto é investir na criação de conjuntos de imagens que guardem coerência entre si. É nesse contexto que o ensaio fotográfico torna-se um formato cada vez mais presente na fotografia contemporânea.

O conceito de ensaio vem da filosofia. O primeiro a desenvolver o formato em tempos modernos foi o filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). Em seus Ensaios, ele criou uma forma mais solta de escrever, dispensando o rigor dos tratados filosóficos por uma estrutura de pensamento baseada em livres associações.

O formato de ensaio logo ganhou espaço na crítica literária e em outros campos da literatura. Na fotografia, o ensaio é um formato bastante usado desde o início do século XX. No Brasil, o primeiro espaço qualificado para os ensaios fotográficos foi a revista

O Cruzeiro (1928-1975). O principal critério para avaliar a qualidade de um ensaio fotográfico é a unidade obtida entre as imagens. Há três tipos de unidade que podem guiar fotógrafos em busca de ensaios coerentes: temática, formal e conceitual.

A unidade temática é a mais fácil de obter. Ela diz respeito ao tema escolhido para o ensaio. Pode ser um lugar, uma manifestação cultural ou religiosa ou até mesmo algo mais subjetivo, como a solidão ou a loucura.

Uma estratégia interessante para editar um ensaio baseado em unidade temática é a busca de contar uma história, seja de forma sequencial e cronológica ou não. Seguindo uma lógica narrativa, cada foto deve trazer novos aspectos sobre o tema, mantendo uma ligação com a foto anterior, mas sem criar redundâncias.

A unidade formal é obtida, em parte, pela escolha dos recursos técnicos. Cada tipo de ensaio ganha uma leitura específica dependendo do equipamento utilizado e do tratamento realizado posteriormente. Ensaios baseados em uma unidade formal se sustentam em padrões de diferença e repetição. A unidade formal se confunde com o estilo, algo duro de ser conquistado, que demanda anos de prática e maturação.

Já a unidade conceitual é a mais difícil de se obter e de entender. O “instante decisivo”, conceito desenvolvido por Henri Cartier-Bresson ao longo de sua trajetória fotográfica, é uma das formas mais conhecidas de unidade conceitual, tendo se transformado em um grande paradigma para a fotografia no século XX.

Os três tipos de unidade citados podem ocorrer de forma separada ou concomitante, em um mesmo ensaio fotográfico. Diferentes ensaios também podem guardar relações entre si, seja de um mesmo fotógrafo ou de fotógrafos diferentes.

Diversas premiações, em âmbito nacional e internacional, têm elegido o ensaio como principal categoria. É o caso do Concurso Cultural Leica-Fotografe, que comemora 10 anos em 2013, e passou a premiar ensaios a partir de 2006. As fotografias aqui apresentadas, de Gisele Martins, fazem parte do primeiro ensaio ganhador do concurso.

Outros exemplos relevantes no cenário brasileiro são os prêmios Conrado Wessel, Porto Seguro e Pierre Verger.

A busca de referências é um passo de primordial importância na concepção de um ensaio. Sem saber o que já foi feito, não é possível criar nada novo, a não ser de forma pontual e por um acaso. O acaso pode ser incorporado no processo criativo, mas só será entendido e canalizado de forma apropriada se houver um conhecimento por trás, um planejamento ou mesmo uma intencionalidade.

As referências de um fotógrafo não precisam se limitar ao campo da fotografia. Podem se expandir por outros campos da arte, como a literatura e o cinema. Podem, ainda, vir de fontes externas, como a filosofia ou até mesmo as ciências exatas ou biológicas.

Mônica Machado, professora do Bacharelado em Fotografia do Senac, cita como exemplo o ensaio de Natalie Laufer Salazar, vencedor do Prêmio Porto Seguro 2012.

“A artista fotografou a tatuagem da avó materna, que esteve em um campo de concentração. Depois, aplicou este número repetidamente em fotografias que fez do apartamento onde sua avó mora desde que veio para Brasil. Com isso, conseguiu demonstrar como esta tatuagem até então ‘invisível’ está presente nas escolhas e caminhos que a família fez e faz em toda sua história. Quando olhamos para as imagens, conseguimos sentir a presença deste horror nas paredes, cortinas e lençóis”, analisa a professora.

Para fotógrafos em busca de inspiração no desenvolvimento de seus próprios ensaios, dois sites são especialmente indicados.

O site da Agência Magnum (magnumphotos.com) reúne trabalhos de seus membros, desde a época de sua fundação, em 1947, até os dias de hoje.

Já o site da Fundação World Press Photo (worldpressphoto.org), exibe trabalhos vencedores do concurso anual promovido por ela, o mais prestigiado do fotojornalismo mundial. Embora o vencedor do WPP seja sempre uma imagem única, a premiação também inclui ensaios, chamados de “stories”.

Muitos nomes se destacam no cenário atual por conta da qualidade de seus ensaios fotográficos, caso de Sally Mann, Martin Parr, David Alan Harvey e do brasileiro Claudio Edinger.

 

Veja mais em: http://www.fotografemelhor.com.br/publieditorial/o-ensaio-fotografico-e-sua-importancia-historica

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2 comentários

  1. Jorge Agra /

    Valeu as informações, tenho um ensaio a fazer, como exercício do Curso de Fotografia SENAC e agora estou mais tranquilo.

  2. Quero fazer um pqe ensaio fotografico.
    Nao encontro o lugar adquado .
    Empreasa para ser mais exata.
    ATT
    SHI

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