Melhor que a técnica, é saber o que fazer com ela

vanessa-atalla-O professor falava de um tal ISO – que no meu palpite era alguma sigla para “Isso Serve para Olhar”. Aliás, até hoje dou risada quando penso nisso.

E os termos técnicos não pararam por aí. Era uma tal de abertura, regra dos terços, diafragma, distância focal, balanço de branco e mais um mundo de palavras que mais me assustavam do que cativavam. Foi nesse momento que pensei: “Onde você se meteu, Vanessa? Ou melhor, onde se meteu a poesia na fotografia que você queria tanto encontrar aqui?”

Bem, a resposta só viria no meu último dia de aula. Lá estava eu, alguns meses depois, sentada na mesma cadeira. A técnica já não parecia mais aquele bicho de sete (ou setenta) cabeças. Eu já estava mais confortável com o que era ensinado e o jeito como era ensinado. Já sabia que, se eu escolhesse usar uma lente fixa numa festinha infantil, eu deveria preparar as minhas pernas, porque a correria seria bem grande. Ou que, se eu quisesse fazer uma foto granulada, só precisaria aumentar o ISO.

Nem preciso dizer que sempre que ouço o termo ISO, dou uma risadinha e lembro da minha criatividade para ressignificar a sigla. Até hoje penso: “Bom, erro de principiante. Fica tranquila, Vanessa. Essa não será nem a primeira e nem a última vez que você dará um furo”.

Curso terminado, certificado na mão, fui para casa com as fotografias do meu projeto autoral. O projeto chamava-se Ensaio Transparência, uma experiência que retratava de uma forma diferente o cotidiano de alguém que acabou de se casar. No caso, eu.

Aí que entrou a parte que não estava em sala de aula. Ninguém havia me ensinado que eu poderia somar casamento e irreverência numa fotografia. O que eu sabia de verdade naquela época era usar a abertura e o botão de disparo automático como ninguém.

Não me ensinaram também que, muitas vezes, o melhor equipamento é você. Nos meus primeiros ensaios, eu saía de casa com uma mochila tão cheia que poderia ser uma mala. Dentro dela, estavam: um speedlite, três lentes, quatro filtros para flash, uma capa para chuva, um carregador de pilha, seis pilhas, duas baterias, dois carregadores de bateria (vai que um não funciona), um rebatedor na mão, um tripé na outra e – ufa! – eu levava “apenas” essas coisas para fazer algumas fotos.

E sabe o que foi mais curioso? Comecei a perceber que eu não usava nem filtro, nem flash, nem mais um monte de coisas que estavam na minha mochila. Sem contar o mico danado que eu paguei tentando fechar o rebatedor que eu nem usei. Hoje eu brinco que quanto mais peso nas costas, mais difícil é voar.

Descobri também que a luz natural era a minha amiga de infância – ela, sim, precisava estar sempre juntinha comigo. E, claro, se eu tivesse tirado dois minutinhos para olhar a previsão do tempo antes de sair de casa, perceberia que nem capa de chuva precisaria ter levado…

A moral da história? Mais importante do que saber a técnica, é o que a gente faz com ela. Hoje eu saio de casa com uma mochila, uma câmera, uma lente (e vejo no site a previsão do tempo para aquele dia). A mesma coisa acontece com um chef de cozinha. Ele pode ter trinta facas diferentes para vários cortes, mas muitas vezes acaba usando a sua faca favorita para tudo.

Nem preciso dizer que tudo o que aprendi foi fundamental para ser a fotógrafa que sou hoje. Não conseguiria entender o valor da luz natural se não tivesse experimentado a luz de estúdio. Também não poderia descobrir qual a lente que conversa comigo se não tivesse conhecido todas as outras.

O recado mais importante aqui é: quando você descobre a sua fotografia, descobre também qual o equipamento que mais combina com você. E eu descobri que para fotografar (e ser bem feliz fazendo isso) eu só precisava do equipamento certo, muita luz natural, um punhadinho de grama e os pés descalços.

E, claro, aprender que na verdade a palavra ISO nasce de “sorrISO”.

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